Autor: Mikaela Roberto

  • Quando a palavra cobre o que deveria expor

    H

    á palavras que a escola nos entrega prontas. Não apenas ensinadas — embaladas. Sem rachaduras aparentes, sem arestas que convidem à dúvida. “Descobrimento” é uma delas.

    Aprendi assim: 22 de abril de 1500, Pedro Álvares Cabral, chegada ao Brasil. Uma narrativa limpa, quase elegante na sua simplicidade. De um lado, portugueses corajosos, civilizados, portadores de um mundo novo. De outro, “índios” descritos como ingênuos, vaidosos, facilmente encantados por espelhos — e, não raro, preguiçosos, incapazes de trabalhar. Era daí que vinha a explicação confortável para a importação de corpos africanos escravizados, aliás.

    Era isso.

    E tinha também o 19 de abril. O “dia do índio”. A escola suspendia a história e oferecia uma imagem: cocar, saiote, arco e flecha, sorriso. Uma figura genérica, frequentemente infantilizada, reduzida a traços decorativos. Eu pintava essas figuras com cuidado. Eu gostava. Eu acreditava — de verdade — que aquilo era uma forma de respeito.

    Não era.

    Mas ninguém me disse que não era.

    Demora um pouco até a gente desaprender o que aprendeu. É um movimento que não é de fora para dentro — vem rasgando lá do fundo mesmo. Um incômodo que começa pequeno e vai ficando maior, até que não dá mais para ignorar.

    Porque “descobrir” não é um verbo inocente. Descobrir supõe vazio. Ausência de “dono”. Ou, no limite, que só passa a existir aquilo que alguém autorizado resolve nomear. E o Brasil que havia aqui antes de 1500? Ninguém me contou sobre ele. E, quando a gente aceita isso sem estranhamento, aceita junto uma forma de organizar o mundo: o que já existia vira pano de fundo; quem chega assume o centro.

    É assim que a linguagem trabalha quando está a serviço do poder. Não como descrição, mas como enquadramento ao que convém a quem detém a narrativa.

    Eu cresci dentro dessa moldura, porque ninguém me disse que eu também vinha daí. Sou descendente de indígena. Guarani Mbya. Descobri isso tarde, como quem encontra uma peça que sempre esteve ali, mas nunca foi considerada parte do jogo. Minha avó me revelou, já com mais de 90 anos, que a avó dela havia sido caçada no laço pelo italiano recém-chegado. Na infância, meu apelido era Juruna. Meu rosto lembrava o da Tainá — antes de Tainá virar referência de cinema. Depois, o sol saiu da rotina, o cabelo mudou, os traços foram sendo lidos de outro jeito.

    E, com eles, parte da história também.

    Apagamento não é só esquecimento. É reorganização. É quando a memória continua existindo, mas perde lugar. Vira ruído. Vira detalhe. Vira algo que não interfere na leitura dominante.

    Mas há um cuidado aqui. Quando falo de minha ancestralidade, longe de mim reivindicar centralidade. Há histórias que não são minhas para narrar em primeira pessoa. Há violências que eu não vivi nem no corpo nem na alma. Mas há, sim, uma responsabilidade que assumo: não repetir, de forma confortável, a versão da história que me foi ensinada.

    Por isso, a formulação precisa mudar.

    Não foi descobrimento. Foi invasão.

    E não uma invasão qualquer — uma invasão que veio acompanhada de uma narrativa tão bem construída que conseguiu se estabelecer como marco civilizatório. Esse talvez seja o ponto mais perverso: não basta invadir, é preciso fazer parecer que a invasão foi necessária, legítima e até benéfica.

    Quando se chama holocausto de descobrimento – sim, porque muitos povos foram dizimados, não apenas no Brasil como em toda a América –, não se está apenas nomeando um evento. Está-se autorizando uma lógica. Uma lógica em que ocupar e violentar é natural, apagar é parte do processo e aniquilar o outro é direito de quem chega com mais poder de enunciação.

    E precisamos falar disso, porque essa história não se limita a 1500.

    Essa lógica continua operando — com outras formas, outros discursos, mas com a mesma estrutura. Ela aparece nas disputas por território, na negligência sistemática, na forma como vidas indígenas ainda são tratadas como variáveis secundárias em decisões políticas. Aparece, de maneira brutal, no que aconteceu recentemente com o povo Yanomami: aumento de desnutrição, doenças evitáveis, mortes de crianças em números que não deveriam caber em nenhum relatório, muito menos em um país que insiste em se narrar como democrático. Não foi falha pontual. Foi abandono. Foi escolha. Foi projeto.

    Leonardo Boff insiste que não existe neutralidade quando a vida está em jogo. Ou se sustenta a vida, ou se contribui para sua negação. O problema é que, quando a história é contada a partir do ponto de vista de quem venceu, a violência costuma vir maquiada. Ganha nomes mais aceitáveis. Processo. Expansão. Descobrimento.

    A linguagem, de novo, fazendo seu trabalho.

    Mas ela não opera sozinha.

    A arte, muitas vezes, chega revolucionando.

    Muito antes de esse debate ganhar espaço mais consistente na escola, a música “Índios”, da Legião Urbana, já deixava escapar um desconforto difícil de nomear. “Quem me dera, ao menos uma vez, explicar o que ninguém consegue entender.” Não é análise histórica, não resolve o problema… Mas abre uma fenda. E, às vezes, é pela fenda que a gente começa a ver o que estava sendo mantido fora de quadro.

    A escola, por muito tempo, preferiu não abrir essa fenda.

    Optou pela versão mais fácil de ensinar. Reduziu a complexidade a uma atividade de colorir. Transformou diferença em caricatura, conflito em silêncio, violência em ausência de tema. O que parecia inocente era, na verdade, profundamente formativo — não do conhecimento, mas da forma como aprendemos a não questionar.
    Silenciamento também é violência.

    Dizer que eu gostava de pintar aquelas figuras não é detalhe.

    É admitir que a gente aprende a aderir antes de aprender a duvidar.

    E é isso que torna o processo mais difícil de desmontar.

    Hoje, esse mesmo gesto não cabe mais como lembrança neutra. Não dá para tratar como inocência. O que aparece, agora, é responsabilidade. Responsabilidade de rever, de nomear melhor, de não repetir automaticamente o que foi aprendido como natural.

    Alguma coisa mudou — isso é verdade. A história já não é contada exatamente do mesmo jeito. Há disputa, há tensionamento, há vozes que antes não eram ouvidas. Mas ainda há muito a ser revisto. Muito a ser desnaturalizado. Muito a ser dito com mais precisão.

    E talvez o ponto mais incômodo seja este: nunca foi falta de informação.

    Não se trata só do que aconteceu em 1500.

    É o quanto, ainda hoje, a gente precisa de palavras bonitas para não chamar violência pelo nome.

    E o quanto isso continua funcionando bem debaixo do nosso nariz.


    Este texto compõe a série Ninguém perguntou minha opinião, mas tanto faz!

    Sobre o processo de escrita: este texto foi produzido com o apoio de ferramentas de inteligência artificial, utilizadas como recurso auxiliar, sob condução autoral (meta-autoria), com responsabilidade integral da autora pelas escolhas conceituais, argumentativas e éticas.

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  • PNE 2026-2036: Entre o plano e a sala de aula há um país

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  • Letras de macarrão

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    desejo de escrever é como pedra no rim. Ou você expele, ou vai doer. Mas o preço do remédio, o medo da cirurgia também doem. O ciberespaço, então, é quase um chá, que ameniza a dor do engavetamento. Por vezes, porém, tem quase efeito paliativo, dada a sensação de efemeridade que nos provoca. Criamos um espaço virtual, escrevemos meia dúzia de palavras e “salvamos”. Se não divulgarmos esse espaço ou se simplesmente nos esquecermos de voltar lá… é como se fossem palavras ao vento, perdidas, dissolvidas no ar. Letras de macarrão.

    As palavras na rede não passam de letras de macarrão. De uma solidez fragilizada, as mesmas letras de Chico que fazem “poema concreto” desintegram-se, liquefazem-se, evolam-se na tela do computador, perdendo-se nas galáxias de sites, blogs, e-books, fóruns, chats e tantos outros ciberburacos negros do espaço virtual.


    Se analisarmos bem, constataremos que – tal como o ciberuniverso com suas inúmeras constelações de brilho lívido, quasares distantes e corpos que gravitam a esmo – a tinta no papel também possui sua efemeridade. Basta encontrarmos no fundo da gaveta aquelas linhas escritas há anos, tantos que fica difícil crer que sejam de fato nossas, tamanha a transformação que os anos nos trouxeram. Pior, basta jamais reencontrarmos as linhas escritas e eternizadas num papel, que para no lixo sem que ninguém o tenha lido. O mesmo papel que eterniza é o que se dissolve, inchado pela água e reduzido a papa, qual letra de macarrão.

    Aprendemos a temer as letras. Ensinaram-nos a escrever com uma responsabilidade cerceadora, que nos tolhe, nos inibe, nos assusta. Diferentemente da fala, a escrita registra, captura. “Escrever não é assim!” É preciso dominar a técnica, saber as regras, adquirir habilidades… como se o ritual de passagem que nos permitisse o prazer da escrita sem culpa nos obrigasse a beber esse conhecimento vertido da boca de gárgulas que – ao mesmo tempo que nos matam a sede – nos amedrontam com pleonasmos viciosos, cacófatos, silepses e anacolutos. Então, deparamo-nos com aquelas letras dançando bem ali a nosso alcance, na colher da sopa, quase que implorando nossa intervenção salvadora… e o que fazemos? Engolimo-las, como quem engole o choro, prende o grito, evita o soco.

    “Com comida não se brinca, mocinha! Toma logo essa sopa!” Não é difícil compreender a relevância da sopa. Ela acalenta. Ela aquece. Ela nutre. Uma criança sabe disso, mesmo que não admita. Diante de tão nobres objetivos, torna-se compreensível o desconforto causado pelo desejo quase incontrolável de roubar um punhado de aletria, salvando as pobres letrinhas de seu honroso destino. Como explicar o prazer de espalhar pelo chão as futuras palavrinhas de macarrão e areia? Como justificar o deleite de destruir um L, arrancando-lhe um pedacinho, por não encontrar um i que preencha a penúltima sílaba? Seria assim tão horrível quanto riscar um livro? E o que dizer, então, da irresistível satisfação de triturar aqueles minúsculos simbolozinhos entre os dentes (e os possíveis grãos de areia), enquanto a próxima palavra a ser formada é escolhida? Quanto desperdício de possibilidades naquele pacote trancafiado no armário! Quantas palavras destinadas a virar mingau…

    É instigante pensar na natureza contraditória do macarrão de letra. Enquanto mantém sua consistência, permite que brinquemos com ele; e só quando se fragiliza é que nos sustenta. Seu caráter mutante, sua natureza dual, sua característica de pão e circo… Se minhas palavras serão alimento ou se apenas letras soltas no chão; se eternizadas ou efêmeras; se levadas a sério ou não… pouco importa. Importa que eu possa escrevê-las sem medo, sem culpa, sem o peso da responsabilidade a me travar dedos e língua. Importa que me saciem a fome, mas que me seja permitido um punhado delas pra brincar. Se algumas ficarão perdidas pelo caminho, acabarão moídas ou engolidas, não importa… desde que não me fiquem presas na garganta!


    Escrito originalmente há muitos anos, antes mesmo de imaginarmos um mundo em que máquinas também escreveriam.


    Este texto compõe a série Que me perdoe o Jabuti!

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