
Tenho medo dessas eleições.
Não aquele medo cinematográfico, com música grave ao fundo e alguém anunciando o fim do mundo pro dia seguinte ao voto.
O perigo verdadeiro surge mais lentamente.
Uma mentira repetida aqui.
Um absurdo normalizado ali.
Uma violência tratada como “liberdade de expressão”.
Um ataque às instituições confundido com combate à corrupção.
Um desprezo por alguns grupos vendido como moralidade.
E, quando percebemos, aquilo que antes nos pareceria inaceitável já está sentado à mesa, comendo nosso macarrão e reclamando do tempero.
Talvez seja disso que eu tenha medo.
O Brasil já viveu uma longa ditadura.
Houve censura, perseguições, prisões arbitrárias, tortura, assassinatos e desaparecimentos.
Não é versão de esquerda da História. É parte documentada, comprovada.
E faz muito pouco tempo.
A Constituição que hoje parece ter estado sempre aí é de 1988.
Talvez esse seja um dos problemas das conquistas sociais: depois de um tempo, começamos a tratá-las como fenômenos naturais.
Mas não são.
Direitos trabalhistas não nasceram em árvore.
Universidade pública nem sempre foi acessível.
Políticas de combate à fome, valorização do salário mínimo, políticas de permanência à educação, proteção social e reconhecimento de direitos de grupos historicamente excluídos existem porque, em algum momento, houve disputa política para que existissem.
E tudo aquilo que foi construído politicamente pode ser politicamente desmontado.
Isso não significa transformar a esquerda em religião, a exemplo do que a Direita tem feito.
Longe disso.
Governos erram. Partidos erram. Há corrupção, contradições, alianças indefensáveis e decisões que precisam ser criticadas. Democracia não exige devoção a governante algum. Exige fiscalização.
Mas há uma diferença entre criticar um governo e acreditar que, por isso, qualquer alternativa serve ou é melhor.
As coisas não são tão simples.
Porque política não é campeonato de futebol.
Quem vence uma eleição administra orçamento, nomeia autoridades, influencia leis, define prioridades, conduz políticas ambientais, educacionais, econômicas e sociais. Decide, concretamente, quem pode esperar e quem não pode.
E há gente que já esperou demais.
Os pobres já esperaram demais.
A população negra já esperou demais.
As mulheres já esperaram demais.
As pessoas LGBTQIA+ já esperaram demais.
Os povos indígenas já esperaram demais.
As pessoas com deficiência já esperaram demais.
A escola pública, a universidade e a ciência já esperaram demais.
Toda vez que alguns desses grupos avançam alguns centímetros, aparece alguém dizendo que avançaram demais.
É curioso como igualdade pode parecer exagero para quem nunca precisou pedi-la.
Por isso me preocupa tanto quando uma eleição começa a ser decidida exclusivamente pela rejeição.
Rejeitar um governo é legítimo. Criticar um presidente é legítimo. Querer mudança é legítimo.
Mas a raiva também vota.
O ressentimento vota.
A desinformação vota.
E nenhum deles costuma ler a letra miúda.
Talvez devêssemos perguntar menos de quem gostamos e mais sobre o que estamos autorizando.
Que país está sendo proposto?
Como esse projeto trata quem discorda?
Que relação mantém com a democracia e com as instituições que limitam o próprio poder?
O que pretende fazer com a educação, a ciência, o meio ambiente, os direitos sociais?
Quem terá mais proteção?
Quem ficará mais vulnerável?
Que projeto de Brasil estão oferecendo?
É nisso que tenho pensado.
E talvez eu esteja escrevendo tudo isso quase como uma prece.
Uma prece de uma cristã, sim, mas uma cristã que não confunde política com religião.
Que consigamos chegar às urnas com alguma serenidade.
Que quem esteja decepcionado saiba separar decepção de vingança.
Que quem deseje mudança tenha a prudência de perguntar mudança para quê, para onde e a que preço.
Que nenhuma rejeição pessoal seja tão grande a ponto de nos fazer tratar como irrelevante aquilo que levou décadas para ser conquistado.
Que desconfiemos das frases fáceis, dos salvadores da pátria e das certezas embaladas em vídeos de poucos segundos.
Que façamos o esforço, trabalhoso e pouco emocionante, de conferir fatos.
De lembrar.
De comparar.
De pensar.
De não acreditar apenas no candidato, no grupo do whatsapp, no pastor.
E, sobretudo, que nenhum de nós descubra tarde demais que, na tentativa de punir um governo do qual não gostava, ajudou a fragilizar um país que pertence a todos nós.
Não oro por unanimidade.
Nem sequer por concordância.
Espero apenas que, diante da urna, o bom senso consiga falar um pouco mais alto que a raiva.
Porque governos passam.
Eleições passam.
Presidentes passam.
Mas algumas escolhas deixam marcas por muito mais tempo do que dura um mandato.
Tomara que a maioria dos brasileiros consiga entender isso a tempo nas próximas eleições.
Da série Ninguém perguntou minha opinião, mas tanto faz!
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Sobre o processo de escrita: este texto foi produzido com o apoio de ferramentas de inteligência artificial, utilizadas como recurso auxiliar, sob condução autoral (meta-autoria), com responsabilidade integral da autora pelas escolhas conceituais, argumentativas e éticas.
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