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  • Nas bordas que habito

    H

    á palavras que a gente mastiga devagar.

    Algumas resistem ao dente.
    Identidade é uma dessas. Parece leve na boca, mas pesa na trajetória.

    Durante muito tempo, me ensinaram que era preciso escolher um lugar.
    Como se a vida fosse um formulário de múltipla escolha — e não um prato de macarrão de letrinhas, onde nada fica no lugar por muito tempo.

    Eu não caibo em uma palavra só. Nunca coube.
    E não é falta de definição. É excesso de atravessamento.

    Sou lida como branca, com os privilégios concretos que essa leitura produz.
    É a partir desses privilégios que minha fala se torna possível — e também limitada.

    Minha história, entretanto, também carrega ancestralidade indígena — dessas que não aparecem na pele, mas atravessam a memória, os silêncios e as lacunas.
    Uma herança marcada por violência na origem e por apagamento ao longo das gerações, que sobrevive mais em histórias interrompidas do que em nomes preservados.
    Durante muito tempo, foi algo que não se dizia — ou que se dizia para ser negado.
    E isso também me atravessa.
    E aqui preciso ter cuidado: reconhecer não é reivindicar centralidade.
    Há pertencimentos que não começam na fala — começam na escuta.

    Sou autista.
    E isso não é detalhe biográfico — é estrutura de percepção.

    Durante anos, chamaram de “alto funcionamento”.
    Hoje sei que o funcionamento nunca foi “alto” ou “baixo”.
    Foi, muitas vezes, custoso, adaptado, mascarado.

    Às vezes, o custo era sair de uma conversa sem saber exatamente o que fiz para que ela funcionasse.

    Se eu performo bem, isso não apaga o esforço invisível que sustenta esse desempenho.
    Tampouco me autoriza a falar por quem vive outras formas de experiência dentro do espectro.

    Sou pansexual em uma relação heteroafetiva.
    Habito, portanto, um lugar curioso: minha experiência não é, hoje, facilmente reconhecida no que as pessoas esperam ver.

    Isso revela algo importante:
    nem tudo que não aparece deixa de existir.
    Às vezes, o que acontece é que certas identidades são apagadas porque só enxergamos aquilo que cabe no padrão esperado —
    e, por muito tempo, eu mesma evitei enxergar o que não cabia.

    Sou cristã.
    Hoje não mais no “conforto” das leituras fundamentalistas, mas no incômodo de uma teologia da libertação.
    Porque a minha fé não pode servir para excluir. Isso seria reduzi-la.

    Sou de esquerda.
    Mas desconfio de qualquer leitura que transforme conflito em resposta simples demais.
    Acredito em justiça social, sim — sem ignorar que políticas públicas têm limites, decisões têm custo e nem todo problema se resolve com uma única resposta.
    Defender direitos não é simplificar o mundo.
    É lidar com ele como ele é.

    Sou professora.
    Mas não nas condições mais precárias que marcam a profissão.
    Minha estabilidade também é efeito de uma estrutura desigual.

    Há colegas ao meu lado trabalhando em condições que hoje já não preciso mais enfrentar.
    Ignorar isso seria confortável demais para ser honesto.

    Sou mãe e esposa de pessoas negras.
    E isso me atravessa profundamente.

    Mas atravessamento não é equivalência.

    Conviver não é viver como.
    Amar não é sofrer no mesmo corpo.

    Há experiências que não me afetam diretamente — e nomear impede que eu me coloque onde não estou.

    E é a partir desse território que tento construir minha fala.

    Não para representar.
    Não para substituir.
    Mas para deslocar o olhar, ampliar a escuta, desnaturalizar o que insiste em parecer neutro.

    Se há algo que atravessa todas essas camadas, talvez meu lugar seja este:
    não o de quem ocupa o centro,
    nem o de quem fala da margem como se fosse sua,

    mas o de quem circula nas bordas,
    com responsabilidade suficiente para não confundir proximidade com pertencimento
    e com compromisso bastante para não transformar consciência em silêncio.

    Não sou síntese.
    Sou tensão.

    E tensão é o que torna o pensamento possível.

    Se há algo que aprendi com a linguagem — esse campo onde trabalho, ensino e vivo —
    é que os sentidos não estão prontos.
    Eles se produzem.

    E se produzem, sobretudo, nos lugares em que as palavras ainda não encaixaram direito.

    É ali que eu tenho escolhido estar.

    Não como quem resolve.
    Mas como quem sustenta.

    Porque, no fim, talvez seja isso:

    não se trata de caber nas palavras.
    mas de aprender a habitá-las
    sem conter o que, nelas, insiste em transbordar.



    Da série Ninguém perguntou minha opinião, mas tanto faz!

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    Sobre o processo de escrita: este texto foi produzido com o apoio de ferramentas de inteligência artificial, utilizadas como recurso auxiliar, sob condução autoral (meta-autoria), com responsabilidade integral da autora pelas escolhas conceituais, argumentativas e éticas.

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